Quando fui convidada para escrever este artigo me deparei com a pergunta: mas o que escrever sobre um assunto que está tão em alta e já foi dissecado por especialistas e explorado por tantas marcas? Apesar de não me considerar uma consumidora do tradicional mercado de luxo , pensei em minhas vivências e cheguei a conclusão que, exatamente ao contrário do que normalmente se pensa, o luxo pode estar na simplicidade. Uma experiência que me marcou foi em uma viagem para a Península de Maraú, na Bahia. Estive lá em 2003 e me senti literalmente num paraíso, entre a lagoa e o mar. Mas foi em um passeio num barquinho de pescador, onde desembarcamos numa ilha praticamente deserta, que tive uma experiência gastronômica que me surpreendeu. Sentada na sombra de algumas palmeiras, em boa companhia, numa mesinha e banco de madeira, tive a oportunidade de sentir o sabor de uma lagosta pescada na mesma hora, assada e servida na própria casca. Este momento ficou guardado na memória do meu paladar. O contato com a natureza, o sabor original dos alimentos e a receptividade de nativos resultaram numa combinação que aguçou meu prazer pela vida. O luxo ultrapassou fronteiras e não está somente relacionado ao brilho, glamour e a ostentação. O simples prazer de degustar um bom vinho, saborear uma refeição ou fazer uma viagem para um lugar ainda pouco explorado podem estar recheados de surpresas que ao serem descobertas se transformam em momentos especiais e cheios de significados. Num mundo com tantas opções e de intensa velocidade, uma pausa para ler um livro, assistir um filme ou simplesmente deitar na rede pode ser um luxo. A realidade de hoje está transformando produtos que antes faziam parte do dia a dia em produtos de luxo. Antigamente receber leite fresco em casa e adquirir alimentos direto do produtor, sem agrotóxicos, era comum e muito acessível. O sabor caseiro pode se tornar um luxo nos próximos anos. Os avanços da tecnologia deixaram o mundo mais rápido e a quantidade de informações aumentou exponencialmente. Com isso, as pessoas têm menos tempo. Coisas simples – como passar um café no coador – estão se tornando momentos mais raros, porque demandam um tempo que hoje é escasso. Alguns estabelecimentos enxergaram isto como uma oportunidade e aproveitaram para oferecer produtos e serviços com sabor de conforto e aconchego. No restaurante do renomado Chef Claude Troigros, por exemplo, faz parte do couvert o tradicional biscoito de polvilho. Já a Chocolat du Jour fez uma releitura da pipoca doce e criou a Choco Pop pipoca caramelizada coberta com chocolate ao leite. No Octavio Café, uma das opções é pedir o café feito no coador de tecido, que é preparado na mesa do cliente. No restaurante Carlota, a sobremesa de maior sucesso leva dois ingredientes tipicamente brasileiros: goiabada e catupiry que se unem para dar vida ao irresistível suflê de goiaba. Tudo isso com muito charme, cercado de bom gosto. Valorizar a simplicidade pode resultar no estilo rústico chique. Este tem sido um caminho que algumas marcas tem procurado explorar, seja porque está realmente na sua essência, ou simplesmente como ferramenta de marketing para atrair consumidores ávidos por uma pausa no ritmo frenético, um momento de conforto.